4 Problemas Que Vais Querer Resolver Na Comunicação Da Ciência

Hoje trago-te um artigo diferente. É mais um artigo de opinião do que outra coisa, mas vais ver que te interessa.

Ontem estava a ver um filme que passava na televisão que me fez pensar um bocado sobre a comunicação na ciência (que poucas instituições fazem com sucesso).

Era um filme sobre zombies passado em Espanha, em que uma vítima de um surto do vírus que causa a “zombificação” é levada, juntamente com os seus salvadores para um barco. Este barco, equipado com um laboratório completo para a descoberta de uma cura, basicamente servia para evitar que o vírus se espalhasse se houvesse um surto a bordo.

********SPOILER ALERT**********

Obviamente que há um surto a bordo e morre quase toda a gente, para variar um bocadinho.

E agora perguntas-me: “Mas o que é que isso tem a ver com comunicação em ciência?”

Bem, durante uma boa parte do filme, duas das personagens principais recusam-se a cooperar com a equipa de cientistas, aparentemente, por medo do que lhes possam fazer na busca pela cura (não vou falar das outras coisas que me confundem neste filme, que não vale a pena, realmente não foi um filme muito fixe).

Mais à frente descobrimos que afinal era um parasita que protegia o seu hospedeiro enquanto espalhava o vírus que os fazia mentir para se proteger e não ser encontrado. No entanto, apenas existe um parasita e ele muda de uma dessas personagens para a outra, mas a primeira CONTINUA A RECUSAR-SE A COLABORAR, mesmo sem o parasita. A equipa científica refere claramente que só eles é que andam à procura da cura e que não sabem se conseguem controlar o próximo surto em terra, ou seja, mesmo que voltem para terra, não estarão seguros, e que PRECISAM do parasita para continuarem com a descoberta pela cura.

Passaram-se aqui DUAS COISAS que me levaram a pensar na comunicação científica:

– As pessoas, sem conhecimento sobre como o processo científico funciona ou do que os cientistas poderiam fazer, tiveram medo do que lhes poderiam fazer. Ficaram extremamente indignados por ter sido pedido a um deles que levasse uma amostra de tecido dos zombies para o barco, por ser arriscado, mesmo sabendo que estavam todos em busca do mesmo e que era essencial descobri-lo;

– Os cientistas, com tanta urgência e pânico, esqueceram-se que os outros personagens pouco ou nada sabiam o que lhes iria acontecer e não lhes explicaram os passos seguintes da sua investigação, nem foram transparentes com a informação que tinham originalmente.

Mas o pior é que este cenário é PLAUSÍVEL.

OK, talvez os zombies não o sejam… Mas esta falta de comunicação entre a população e a ciência é perfeitamente plausível!

Primeiro

porque as pessoas, de um modo geral, têm pouco interesse sobre os assuntos que estão a ser estudados. O que lhes interessa é se lhes afeta o dia-a-dia ou não (se bem que nem sempre vêm os benefícios a longo prazo). Na minha opinião a indústria farmacêutica também ajuda neste sentido, criando alguma desconfiança com algumas atitudes que são tomadas a nível empresarial a favor do lucro.

Segundo

porque as equipas científicas comunicam muito pouco sobre o que fazem com o público em geral, o que faz com que as pessoas também não se interessem, nem saibam o que se está a passar ou quais são os limites do nosso conhecimento. Há várias razões para isto, passando desde a personalidade da grande maioria da malta que vai para ciência (eu incluído, só saí um pouco “da casca” e do conforto há pouco tempo). Outra razão importante é que, muitas vezes, a própria natureza do trabalho torna-o difícil de explicar o que se está a fazer, devido à sua complexidade e profundidade dentro de determinado tema.

Terceiro

porque os meios de comunicação social distorcem e exageram as descobertas que são feitas para que mais gente veja as suas noticias. Uma pequena descoberta, que pode ser apenas um indício para algo maior, em que o investigador decidiu referir que pode levar a uma cura para um cancro específico é noticiado como “Descoberta A Cura Para Todos Os Cancros!”.

Obviamente que estou a ser exagerado, mas estou MUITO mais perto da verdade do que gostaria…

Quarto

porque alguns investigadores cedem à pressão a que estão sujeitos para publicar artigos e descobertas e falsificam resultados. A competição é feroz e nem sempre ajuda o processo científico (e por isso é que há revistas científicas que são revistas por outros especialistas na área). Temos um exemplo disto que está sob investigação em Portugal – uma investigadora do IPATIMUP que alegadamente falsificou algumas imagens do seu Doutoramento. E há também um caso muito famoso, que levou à crença de que as vacinas causam autismo (o que não é verdade, nem sabemos muito bem como ocorre o autismo) e ao aumento do número de pessoas anti-vacinação (e consequente aumento dos casos de algumas doenças que estavam quase extintas).

Em principio nunca nos depararemos com o cenário do filme (nunca se sabe, há fungos que tornam os insetos seus hospedeiros em verdadeiros zombies). 

Mas deparamo-nos com outros problemas hoje em dia, ligados a esta falha na comunicação. Um deles tem a ver com o financiamento das instituições, que é dado (ou não) pelos investidores muitas vezes pela imagem que eles têm desse tema em particular. Se nunca tiverem ouvido falar disso, vão-se interessar pouco pelo assunto e podem mesmo não investir.

Também temos tido problemas com bactérias multi-resistentes, como algumas estirpes de tuberculose, que podem levar a situações parecidas com a do filme. Se uma pessoa não está informada sobre a doença que tem pode-se recusar a ficarde quarentena e contaminar todos à sua volta, sem se aperceber do risco em que está a colocar todas as outras pessoas.

Imagem de [1]

Imagem de www.flickr.com

As descobertas científicas não têm apenas benefícios imediatos (aliás, poucas têm). Portanto, pensa no assunto e informa-te. Saber um pouco sobe tudo ajuda-nos a tomar melhores decisões no nosso dia-a-dia. O futuro da humanidade pode ser definido por muitas pequenas decisões que todos tomamos todos os dias (refiro-me ao Efeito Borboleta).

Se queres ser um investigador lembra-te que nem toda a gente sabe tanto sobre o assunto como tu, por isso adapta o teu discurso à tua audiência e não tenhas medo de apresentar o teu trabalho a outros. Aliás FAZ QUESTÃO de o fazer, porque, o que quer que queiras saber é interessante, fixe e útil. =)

Ainda achas que a ciência não interessa? Deixa um comentário no fundo da página!

Se quiseres saber o nome do filme contacta-me.

 

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