As Hormonas E Os Seus Efeitos Nos Rapazes

Já que tenho estado a falar da reprodução, vamos dar uma vista de olhos mais a fundo à regulação hormonal no ser humano, em particular no homem.

Como já deves ter reparado, nos homens as mudanças corporais despoletadas pelas hormonas são claramente diferentes, mas a sua regulação é mais simples, até porque não tem um carácter cíclico, como nas mulheres.

O que é isto da regulação hormonal e o que é que tem a ver com a reprodução?

A regulação hormonal é um sistema de sinalização que leva células específicas no corpo a terem um determinado comportamento e tem um impacto mais notável durante da puberdade (se bem que nem todas as hormonas têm efeitos a nível do sistema reprodutor). Todos os dias estamos sujeitos à regulação hormonal, mesmo depois da puberdade.

No total, um homem adulto (depois da puberdade) sofreu as seguintes alterações corporais: aumento dos testículos e do pénis, maturação da próstata e dos túbulos seminíferos  (Figura 1 e 2) e aparecimento do pelo púbico, que aparece sempre antes dos pelos do resto do corpo. Cada uma destas alterações é mediada por uma ou mais hormonas e inicia-se por volta dos 11 ou 12 anos e termina por volta dos 16 (se bem que se pode extender mais uns anos).

Figura 1 - Representação dos órgãos sexuais masculinos, com especial ênfase na próstata. Imagem de
Figura 1 – Representação dos órgãos sexuais masculinos, com especial ênfase na próstata. Imagem de [1].

 

Figura 2 - Representação simplificada de um testículo. Imagem de [2].
Figura 2 – Representação simplificada de um testículo. O epidídimo é onde se acumulam os espermatozóides para maturarem e a túnica albugínea é a capa fibrosa que cobre o testículo (antes do escroto ainda há a túnica vaginal, não representada). Imagem de [2].

Então e o que é uma hormona?

Uma hormona é uma molécula (tipicamente uma proteína ou um lípido) produzida por determinado órgão do sistema endócrino (como, a glândula pituitária, no cérebro, os testículos/ovários, pâncreas, tiroide, glândulas suprarrenais, etc.) que vão produzir um efeito num outro órgão distante do local de produção. Ou seja, estas substâncias são libertadas para o sangue pelas células dos órgãos que as produzem e são transportadas até outro órgão, no qual vão interagir com recetores à superfície das células desse órgão, levando a que tenham um determinado comportamento. Este processo é um tipo de comunicação entre células distantes e chama-se sinalização endócrina. Estes efeitos podem ir desde o que sentes quando te assustam ou fazes algo excitante (sentes o efeito da adrenalina ou epinefrina) até às alterações que vês durante a puberdade (o aparecimento de pelos nos mais variados sítios, os picos de crescimento, entre outros… continua a ler), passando pela regulação da quantidade de água, e iões, e do sistema imunitário. No caso da adrenalina, um dos efeitos que mais sentimos é a aceleração do batimento cardíaco (para que chegue mais sangue aos músculos e ao cérebro, para agirmos mais rapidamente) – ela é produzida pelas suprarrenais (acima do rim, claro) e transportada pelo sangue até ao coração onde se liga aos recetores das células que marcam o ritmo do batimento cardíaco e estimulam-nas, aumentando o ritmo cardíaco (através de sinais elétricos). [3] Também afeta os pulmões aumentado a capacidade de absorção de oxigénio.

As consequências mais notáveis das hormonas começam-se a dar a partir dos 11 ou 12 anos. [4] Tudo começa com a libertação da hormona libertadora das gonadotrofinas (GnRH), produzida pelo hipotálamo (no cérebro, próximo da glândula pituitária), que vai estimular a glândula pituitária a produzir as gonadotrofinas, a hormona leutinizante (LH) e a hormona estimuladora dos folículos (és capaz de encontrar muitas vezes hormona folículo-estimulante, mas a sigla continua a ser FSH). [5] A LH estimula as células de Leydig, nos testículos, a produzir e secretar (=libertar) testosterona, a hormona responsável pelas características sexuais secundárias (pelo facial, púbico, debaixo dos braços, etc., mudança de voz, estimula a produção de proteínas nos músculos e crescimento dos ossos) e algumas primárias, como a maturação dos tubos seminíferos e da próstata (órgão que produz um fluido importante para a mobilidade e funcionamento normal dos espermatozoides, juntamente com os espermatozoides forma o sémen). [1, 6, 7] A FSH, juntamente com a testosterona, estimula as células de Sertoli a dividirem-se, aumentando o tamanho dos testículos (que é o primeiro sinal externo do inicio da puberdade). Estas células são uma espécie de “amas de leite” para as células da linha germinal (as que originam os espermatozoides), fornecendo-lhes substâncias que elas precisam para produzir espermatozóides. [8] Para além destas, há ainda a hormona de crescimento humana (GH), que, juntamente com a testosterona e o estradiol (outra hormona produzida pelas células de Sertoli), regulam o crescimento, resultando no aumento de altura e massa que se observa durante a puberdade.

Figura 3 - Representação dos túbulos seminíferos. Nesta representação podem-se ver: a lâmina basal (que divide o interior da parede do túbulo do exterior do túbulo) as células de Sertoli (dentro da parede do túbulo), as células de Leydig (por fora do túbulo) e as células mióides (também por fora do túbulo). Estas últimas estão envolvidas no transporte dos espermatozóides para fora dos testículos. Imagem de [9]
Figura 3 – Representação dos túbulos seminíferos. Nesta representação podem-se ver: a lâmina basal (que divide o interior da parede do túbulo do exterior do túbulo) as células de Sertoli (dentro da parede do túbulo), as células de Leydig (por fora do túbulo) e as células mióides (também por fora do túbulo). Estas últimas estão envolvidas no transporte dos espermatozóides para fora dos testículos. Imagem de [9]

Bem, com a maturação das células de Sertoli e de Leydig, pode-se iniciar a espermatogénese, o principal objetivo da puberdade (basicamente é o passo mais essencial para se atingir a maturidade sexual, permitindo a reprodução). Este é o processo de produção de espermatozoides, demora cerca de 74 dias e é regulado pelas hormonas de que tenho falado até agora. [10] Se me tens seguido, também já deves saber que passa pela meiose, visto que os espermatozoides são gâmetas.

Mas em que sentido está a meiose envolvida?

Primeiro, temos as espermatogónias que se dividem por mitose em parte para manter os seus números e em parte para se diferenciam nos espermatócitos primários. Estes espermatócitos iniciam a meiose I, resultando nos espermatócitos secundários. Estes espermatócitos secundários iniciam a meiose II e resultam em espermátides, que depois “libertam” o espermatozoide (na realidade diferenciam-se em espermatozoides) (Figura 4). [7, 11]

Figura 1 - Representação da espermatogénese. Como podes ver, é uma meiose normal. As características específicas dos espermatozóides surgem por processos de diferenciação, que vão ocorrendo ao longo da meiose e no fim da mesma. Imagem de [12].
Figura 4 – Representação da espermatogénese. Como podes ver, é uma meiose normal. As características específicas dos espermatozóides surgem por processos de diferenciação, que vão ocorrendo ao longo da meiose e no fim da mesma. 1 – Espermatócitos primários, 2 – espermatócitos secundários, 3 – espermátides, 4 – espermatozóides. Imagem de [12].

Estas hormonas de que tenho vindo a falar vão passar a ser produzidas durante toda a vida após a puberdade, mas a sensibilidade das células recetoras e os níveis das hormonas diminuem (a diminuição da sensibilidade deve-se ao facto de elas produzirem menos recetores para estas substâncias). Para controlar o quanto se produz de cada hormona (pelo menos das gonadotrofinas e da testosterona, há mais formas de regulação que serão discutidas numa altura em que sejam mais relevantes) dá-se um efeito de feedback negativo. O que isto quer dizer é que os níveis de testosterona vão inibir a produção de GnRH pelo hipotálamo (reduzindo a produção de LH e FSH as hormonas), reduzir a sensibilidade da pituitária à GnRH (que reduz a produção da LH) e estimular a produção de outra hormona, a inibina, pelas células de Sertoli, que, por sua vez, vai inibir a produção de FSH pela pituitária (Figura 5). [6]

Figura 5 - Representação da regulação hormonal nos homens. A GnRH, produzida pelo hipotálamo vai estimular a produção de FSH e LH na pituitária (também conhecida como hipófise), que estimulam a produção de testosterona pelas células de Leydig e estimulam as células de Leydig a iniciar a espermatogénese. A testosterona, também a espermatogénese, mas ainda estimula a produção de Inibina pelas células de Sertoli, que vai atuar diretamente no hipotálamo e reduzir a produção de GnRH. Ao mesmo tempo, a testosterona, só por si, também atua ao nível do hipotálamo, também inibindo a sua produção de GnRH e ao nível da hipófise, onde inibe a produção de LH apenas.
Figura 5 – Representação da regulação hormonal nos homens. A GnRH, produzida pelo hipotálamo vai estimular a produção de LH e FSH na pituitária (também conhecida como hipófise), que estimulam a produção de testosterona pelas células de Leydig e estimulam as células de Sertoli a iniciar a espermatogénese. A testosterona, também estimula a espermatogénese, mas ainda estimula a produção de Inibina pelas células de Sertoli, que vai atuar diretamente no hipotálamo e reduzir a produção de GnRH. Ao mesmo tempo, a testosterona, só por si, também atua ao nível do hipotálamo, também inibindo a sua produção de GnRH e ao nível da pituitária, onde inibe a produção de LH apenas.

Queres saber mais? Contacta-me

Referências

  1. Informed Health Online. How does the prostate work? 2016 [cited 2016 21/10]; Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmedhealth/PMH0072475/.
  2. Testicle. [cited 2016 26/10]; Available from: https://en.wikipedia.org/wiki/Testicle.
  3. Richardson, D.R., D.C. Randall, and D.F. Speck, Cardiopulmonary System Structure and Function. 1998, Madison, Connecticut: Fence Creek Publishing.
  4. Parent, A.S., et al., The timing of normal puberty and the age limits of sexual precocity: variations around the world, secular trends, and changes after migration. Endocr Rev, 2003. 24(5): p. 668-93.
  5. Hirsch, I.H. Puberty in Boys. 2016 [cited 2016 20/10]; Available from: http://www.merckmanuals.com/home/men-s-health-issues/biology-of-the-male-reproductive-system/puberty-in-boys.
  6. Science. Puberty – Male Puberty. Puberty – Physical Maturity, Male Puberty, Female Puberty, Related Topics 2016 [cited 2016 20/10]; Available from: http://science.jrank.org/pages/5583/Puberty-Male-puberty.html.
  7. RAFF, E.P.W.H. and K.T. STRANG, VANDER’S HUMAN PHYSIOLOGY: THE MECHANISMS OF BODY FUNCTION. 13th ed. 2014, New York, NY: McGraw-Hill.
  8. Walker, W.H. and J. Cheng, FSH and testosterone signaling in Sertoli cells. Reproduction, 2005. 130(1): p. 15-28.
  9. Paxton, M.P.A.K.S. Male Reproductive System: Sertoli Cells. 2004 [cited 2016 26/10].
  10. Tate, P., SEELEY’S PRINCIPLES OF ANATOMY & PHYSIOLOGY. 2nd ed. 2012, New York: McGraw-Hill.
  11. Gilbert, S., Developmental Biology. 6th ed. 2000, Sunderland, MA: Sinauer Associates.
  12. Anchor207. Spermatogenesis. 2013; Available from: https://en.wikipedia.org/wiki/Spermiogenesis#/media/File:Spermatogenesis.svg.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *