As Hormonas E Os Seus Efeitos Nas Raparigas

Ao longo das nossas vidas, o nosso corpo sofre muitas alterações, como o desenvolvimento da visão, o desenvolvimento dos neurónios motores, o crescimento do corpo, e, no final da infância, o desenvolvimento da maturidade sexual. [1] Obviamente que não são estas as únicas coisas que mudam nos nossos corpos durante a nossa vida, são inúmeras e ocorrem mudanças até ao dia em que morremos, mas são algumas das mais marcantes. E as hormonas têm muitos efeitos no nosso corpo, especialmente nas mulheres, que têm um ciclo bem definido e notório.

O desenvolvimento da maturidade sexual, chamado puberdade, é um processo longo que decorre ao longo de vários anos e de forma diferente nas raparigas que nos rapazes. Vem acompanhado de um último surto de crescimento e do crescimento de pelo onde antes não havia (debaixo dos braços e os pelos púbicos desenvolvem-se em ambos os sexos). Mas há muitas mudanças que ocorrem apenas nas raparigas ou apenas nos rapazes (vê aqui as mudanças que ocorrem nos rapazes). [2]


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Nas raparigas o desenvolvimento sexual é principalmente marcado pelo crescimento dos seios, que marca o inicio da puberdade (fisicamente), pelo inicio da menstruação e por começar mais cedo que nos rapazes (tipicamente começa por volta dos 8 anos e termina por volta 15). [23]

Obviamente que atingir a maturidade sexual é ESSENCIAL para o ser humano, para nos reproduzirmos e transmitirmos o nosso DNA, propagando-o ao longo do tempo. Se me tens seguido também já deves saber que não vamos passar exatamente o mesmo DNA para os nossos filhos, reproduzimo-nos de forma sexuada, o que leva a uma “mistura” do DNA dos progenitores (vê aqui como isto acontece com a meiose).

Nas raparigas vai-se estabelecer um ciclo hormonal – o ciclo menstrual – que se vai repetir todos os meses, e culmina na menstruação quando não há uma gravidez, resultante da preparação para proteger e nutrir uma nova vida em desenvolvimento.


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Mas o que é que desencadeia a estas mudanças tão importantes?

Tal como nos rapazes, tudo começa com o aumento da secreção da hormona libertadora das gonadotrofinas (GnRH – Se não sabes o que é uma hormona, vê aqui) pelas células do hipotálamo. [4, 5] Também funciona da mesma maneira, estimulando a produção de hormona leutinizante (LH) e de hormona estimuladora dos folículos (FSH), que vão atuar nas gónadas femininas, os ovários (Figura 1). Por sua vez a LH, estimula a produção de androgénios (ou seja, esteroides sexuais “masculinos”, daí o “andro-“), como a testosterona, pelas células intersticiais nos folículos dos ovários (neste caso as células da teca).

Anatomia feminina interna
Figura 1 – Anatomia interna do sistema reprodutor feminino. A vagina é o canal por onde se dá a penetração sexual e termina no colo do útero, um canal mais estreito por onde passa o esperma para que ocorra fecundação. Os ovários, as gónadas femininas, estão ligados às trompas de Falópio, para onde o ovócito II será libertado durante a ovulação. Não confundas o miométrio, o músculo do útero (“mio-“ = músculo), com o endométrio, a camada de células superficial que cobre o interior do útero e se desenvolve ao longo do ciclo menstrual e depois se pode desenvolver na placenta, caso haja fecundação. Imagem de [6].

Sim, estas hormonas são responsáveis pelo desenvolvimento sexual masculino (ver regulação hormonal masculina), mas também pelo aparecimento de algumas características sexuais secundárias tanto nos homens como nas mulheres (principalmente o aparecimento de pelos no corpo, mas são essenciais ao desenvolvimento sexual normal em ambos os sexos). [7]

OBVIAMENTE que não faz crescer testículos numa rapariga, mas desregulando os níveis de testosterona pode haver um hiperdesenvolvimento do clitóris (a Figura 2 mostra-te a anatomia externa normal de uma mulher) e um aparecimento de pelos a mais (como barba rija numa mulher), por exemplo. [8] A maior parte desta testosterona (e outros androgénios) vai ser convertida em estrogénios, outra classe de hormonas (neste caso, esteroides sexuais “femininos” – já vais perceber a sua importância). [7]

Então e como é que isto acontece?

Bem, as células da teca estão muito próximas de umas outras células intersticiais, chamadas células da granulosa (Figura 3), para onde os androgénios são transferidos. Estas células são estimuladas pela FSH de modo a que produzam a enzima necessária para a conversão dos androgénios em estrogénios, em particular o estradiol (a enzima chama-se aromatase). [9]

Os estrogénios e a testosterona, durante a puberdade, vão estimular a secreção de hormonas de crescimento, responsáveis pelos picos de crescimento e, eventualmente, param este crescimento ao fecharem os “centros” de crescimento dos ossos, as epífises. No caso dos estrogénios, também induzem o desenvolvimento dos seios do útero e da vagina no sexo feminino, mas esta não é a principal função dos estrogénios… Têm uma função que vai ocorrer em todos os ciclos menstruais da mulher, que começam mais ou menos a meio da puberdade, já lá vamos.

Anatomia feminina externa
Figura 2 – Anatomia externa do sistema reprodutor feminino. Também conhecida como vulva – contem o clitóris (pensa nesta estrutura como um mini pénis, também incha com a estimulação e está coberto de terminações nervosas que dão prazer sexual., os lábios maiores e menores que protegem os genitais femininos, a uretra, que liga a bexiga ao exterior (para que será?? =P ), o vestíbulo (basicamente é a área entre os lábios onde se encontra a vagina e a uretra) e a vagina, que está (antes da primeira relação sexual) protegida pelo hímen, uma fina camada de pele. Os lábios e o clitóris vão aumentar de tamanho, a vagina vai abrir durante a puberdade. Imagem de [10].

Depois do inicio do desenvolvimento dos seios (evento chamado telarca) vai haver um aumento progressivo da produção de estrogénio até atingir os níveis normais de um adulto. [11] Ora, este aumento de estrogénios é devido ao desenvolvimento dos folículos. Sim, desenvolvem-se vários de cada vez, mas a maior parte deles sofre atresia, uma forma de apoptose controlada hormonalmente [9, 12, 13] Basicamente, quanto maiores são os folículos, mais células da granulosa e da teca se encontram neles, o que quer dizer que há uma maior produção de estrogénios (para além dos estrogénios estimularem a atividade das células da granulosa diretamente). Eventualmente (próximo da primeira menstruação) um dos folículos que se estavam a desenvolver torna-se dominante e torna-se o principal produtor de estrogénios, enquanto que os outros folículos em desenvolvimento morrem. É nesta fase que os ovócitos I, parados na meiose I se começam a desenvolver em ovócitos II, que param na meiose II até à fertilização, mas só o ovócito do folículo dominante chega a ovócito II (os outros morrem). [9]

IMPORTANTE: O ovócito II  é aquilo a que a maior parte das pessoas chama, erradamente, óvulo (em inglês “egg”, ou seja, ovo), que sai com a menstruação. ÓVULO ESTÁ ERRADO A MAIOR PARTE DAS VEZES!!! Ovócito II é o equivalente a um ovo de galinha que se come, enquanto que o óvulo (seguindo a mesma analogia) seria um ovo onde de onde vai nascer um pinto.


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Os estrogénios, por sua vez, vão inibir a produção de GnRH e, consequentemente, de FSH e LH (também actua directamente na glândula pituitária, onde a FSH e LH são produzidas). Mas quando os níveis de estrogénio atingem um determinado limite (próximo do seu nível máximo) em vez de inibir a produção destas hormonas, estimula a produção rápida de GnRH e, consequentemente, de uma grande quantidade de FSH e LH (principalmente LH), num pico rápido e elevado, que leva à ovulação. A ovulação corresponde à libertação do ovócito II do folículo dominante – o que se desenvolve mais e principal responsável pela produção de estrogénio – em que estava “alojado” para a trompa de Falópio à qual o ovário que está em ovulação está ligado. [9]

foliculo - células da teca e células da granulosa
Figura 3 – Folículo em desenvolvimento em cultura. Este folículo foi corado com hematoxilina, de modo a que se consigam ver as células claramente. No centro consegues ver o ovócito bem maior que as outras células, rodeado de células mais pequenas, as células da granulosa. Há também um aglomerado de células achatadas acima, onde está a seta que são as células da teca. Imagem de [14].

Nesta altura o estrogénio já é suficiente para estimular a formação do endométrio que, juntamente com a ovulação, levam à primeira menstruação (a menarca – não confundir com monarca) no final do primeiro ciclo menstrual. A menarca ocorre, tipicamente, 2 a 3 anos depois da telarca. [5] Este evento, tal como a ovulação, vai começar a ocorrer a cada 28 dias (idealmente – nos primeiros anos varia muito, e mesmo durante a fase adulta, tem tendência a variar), a meio do ciclo hormonal que tenho vindo a referir, o ciclo menstrual.

A partir dos “destroços” do folículo, já sem ovócito II, forma-se o corpo lúteo, que vai começar a produzir progesterona, permitindo que ocorra um ciclo menstrual completo.

Esta hormona impede que haja um novo pico de LH (pois o corpo lúteo produz estrogénio e volta a aumentar a sua concentração no sangue) e, juntamente com o estrogénio, aumenta o endométrio e prepara-o para a implantação de um óvulo (ovócito II já fecundado). Caso não haja um óvulo para se implantar e estimular a manutenção do endométrio, este, eventualmente começa a degenerar, pois o corpo lúteo tem um tempo de vida limitado (se ele morre, lá se vai a progesterona). [9] Ao degenerar, o endométrio tem de sair por algum lado, ou seja, pela vagina, levando todos os vasos sanguíneos que tinha contidos em si consigo e o fluxo menstrual. Este, idealmente, não deverá ter coágulos – significa que ele não está a degenerar correctamente e está a ficar retido por alguma razão.

Com a degeneração do corpo lúteo, vai deixar de haver produção de progesterona e estrogénio (pelo menos vai reduzir significativamente), pelo que a produção de FSH e LH vai deixar de ser inibida. Ou seja, vai permitir que um novo grupo de folículos seja estimulado, dando inicio ao novo ciclo no primeiro dia da menstruação do ciclo anterior. [9] A partir daqui, deve ocorrer um ciclo menstrual todos os meses até se esgotarem todos os ovócitos, iniciando a menopausa. Sim, a mulher tem um número limitado de gâmetas, e já nasce com todos os folículos primordiais preparados para o desenvolvimento da maturidade sexual.

Para facilitar a eventos específicos do ciclo, este pode ser visto de dois prismas – o ponto de vista dos ovários e o ponto de vista do útero. Do ponto de vista dos ovários podemos falar da fase folicular, que ocorre entre o inicio do ciclo e a ovulação, e da fase lútea, ocorre da ovulação até ao final do ciclo. Do ponto de vista do útero podemos falar de 3 fases: a fase menstrual, que ocorre durante a menstruação; a fase proliferativa, entre o final da menstruação e a ovulação (são cerca de 10 dias); e a fase secretória, que ocorre da ovulação até ao fim do ciclo, e onde o endométrio se prepara para a implantação do óvulo – o ovócito II fecundado – produzindo as substâncias necessárias ao sucesso da implantação. [9]

Se não percebeste bem as relações entre as hormonas e os eventos que acontecem ao longo do ciclo menstrual, na Figura 4 tens um bom resumo desta história toda. =)

ciclo menstrual
Figura 4 – Resumo do ciclo menstrual a nível dos ovários, do útero e hormonal. Como podes ver, tudo o que expliquei até agora está bem resumido nesta imagem, relacionando de forma gráfica os níveis de cada hormona com os níveis de todas as outras e com os eventos que ocorrem nos ovários e no útero, incluindo quando se dá a ovulação e quando se inicia a menstruação em si. Quando se dá a ovulação o ovócito já é o ovócito II e está novamente parado na meiose, neste caso na meiose II. Imagem de [15].

 

É neste ciclo que culmina a puberdade nas mulheres e vai acontecer todos os meses, desde o desenvolvimento sexual até à menopausa, quando se acabarem os ovócitos em ambos os ovários.

Tem em conta que há muitas coisas que podem causar desequilíbrios hormonais, como a má nutrição ou o excesso de peso, por exemplo, mas não só… Estes desequilíbrios que podem influenciar tanto a idade a que começa a puberdade (o caso do excesso de peso e da má nutrição) como a duração dos ciclos hormonais, levando a que o ciclo menstrual tenha mais ou menos dias (às vezes pode mesmo não vir a menstruação – chama-se amenorreia). [16, 17]

Se gostaste e quiseres saber sempre que sai um novo artigo subscreve em baixo. =)

 

Referências

  1. Rymanowicz, K. Infant vision development: Helping babies see their bright futures! Michigan State University Extension 2014 [cited 2017 25/01]; Available from: http://msue.anr.msu.edu/news/infant_vision_development_helping_babies_see_their_bright_futures.
  2. Knudtson, J. Puberty in Girls. Merck Manual Consumer Version 2016 [cited 2017 25/01]; Available from: http://www.msdmanuals.com/home/women-s-health-issues/biology-of-the-female-reproductive-system/puberty-in-girls.
  3. Hirsch, I.H. Puberty in Boys. 2016 [cited 2016 20/10]; Available from: http://www.merckmanuals.com/home/men-s-health-issues/biology-of-the-male-reproductive-system/puberty-in-boys.
  4. Science. Puberty – Female Puberty. Puberty – Physical Maturity, Male Puberty, Female Puberty, Related Topics 2016 [cited 2016 01/02]; Available from: http://science.jrank.org/pages/5584/Puberty-Female-puberty.html.
  5. Knudtson, J. Female Reproductive Endocrinology. 2016 [cited 2017 01/02]; Available from: http://www.msdmanuals.com/professional/gynecology-and-obstetrics/female-reproductive-endocrinology/female-reproductive-endocrinology.
  6. Servier. Reproduction. Servier Medical Art [cited 2017 06/02]; Available from: http://www.servier.com/slidekit/?item=43.
  7. Kumar, P. and S.F. Sait, Luteinizing hormone and its dilemma in ovulation induction. Journal of Human Reproductive Sciences, 2011. 4(1): p. 2-7.
  8. Women’s Health Program. Testosterone and androgens in women. 2010; Available from: http://med.monash.edu.au/sphpm/womenshealth/docs/testosterone-and-androgens-in-women.pdf.
  9. RAFF, E.P.W.H. and K.T. STRANG, VANDER’S HUMAN PHYSIOLOGY: THE MECHANISMS OF BODY FUNCTION. 13th ed. 2014, New York, NY: McGraw-Hill.
  10. Miguelferig. Vulva hymen miguelferig. 2012 [cited 2017 06/02]; Available from: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Vulva_hymen_miguelferig.png#filehistory.
  11. Alonso, L.C. and R.L. Rosenfield, Oestrogens and puberty. Best Pract Res Clin Endocrinol Metab, 2002. 16(1): p. 13-30.
  12. Erickson, G.F., Follicle Growth and Development. The Global Library of Women’s Medicine, 2009.
  13. Kaipia, A. and A.J. Hsueh, Regulation of ovarian follicle atresia. Annu Rev Physiol, 1997. 59: p. 349-63.
  14. Barboni, B., et al. Representative images of the morphology of the follicles before and after the culture. journal.pone.0027550.g001.png. 2011 [cited 2017 08/02]; Available from: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Representative_images_of_the_morphology_of_the_follicles_before_and_after_the_culture._journal.pone.0027550.g001.png.
  15. Isometrik. MenstrualCycle2 en.svg. 2009 [cited 2017 07/02]; Available from: https://simple.wikipedia.org/wiki/Menstrual_cycle#/media/File:MenstrualCycle2_en.svg.
  16. Burt Solorzano, C.M. and C.R. McCartney, Obesity and the pubertal transition in girls and boys. Reproduction (Cambridge, England), 2010. 140(3): p. 399-410.
  17. Soliman, A., V. De Sanctis, and R. Elalaily, Nutrition and pubertal development. Indian Journal of Endocrinology and Metabolism, 2014. 18(Suppl 1): p. S39-S47.

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